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No dia 19 de agosto 1975, na Favela do Guarda, Del Castilho, subúrbio do Rio de Janeiro, nascia Carlos César Machado. Desde menino já adotara a música como seu foco de vida. Com 11 anos, mesmo com a proibição do pai de não deixar filho na rua à noite (por conta da violência), Carlinhos fugia para ouvir os pagodes realizados nos botequins da favela.

Carlinhos, tinha primos mais velhos que volta e meia ensaiavam sambas e ele, o menor, queria cantar. Barrado pelos primos, o menino precocechorava. Como quem quer vai à luta, depois de muita insistência, passados dois anos, os primos cederam aos apelos do garoto que virou o cantor do grupo.

Foi nessas época que conheceu o Xande, Arthur Luis e Sergio Rufino que anos mais tarde formariam o grupo Revelação. Moravam em comunidades vizinhas e sempre se encontravam em festas locais.

Aos 17 anos, Joãozinho do Pagode (cover de Zeca Pagodinho), cantor do Clube River (no bairro Piedade) e da casa de show Sambola (na Abolição) desafiou Carlinhos a cantar no Clube River, na época a coqueluche do samba no subúrbio carioca. E desafio aconteceu da seguinte forma: 'Se você se garante e acha que canta mesmo, vou te levar para cantar lá na Roda de Samba do River, que só tem bamba (Alamir, Xande etc.). Mas é o seguinte, se te vaiarem, tu finge que nem me conhece', relembra Carlinhos.

'Fui, mas cheio de medo e de vergonha, por que na verdade eu só cantava, até então, na minha comunidade e nas comunidades vizinhas, onde todo mundo me conhecia. Chegando lá ele me apresentou ao locutor, o Jairo, que disse que eu não ia cantar naquele dia e me jogou para semana seguinte. Na semana seguinte, passei no Joãozinho para irmos juntos, e ele inventou um mal-estar e disse que não poderia ir. Fui com a cara e a coragem. Subi no palco e cantei três músicas. Quando desci do palco, se aproximou um senhor, de cabeça branca, Sr. Sergio, que era o responsável pelo pagode e disse: 'Vem cá garoto, é a primeira vez que você canta aqui, né? Tudo bem, você já está no esquema'. E me pagou!!!

Voltei pra comunidade todo contente, havia arranjado um trabalho, estava com dinheiro no bolso, e aí vi o Joãozinho, bonzinho, sentado no quintal, perna cruzado, copinho na mão e fumando um cigarro. "Quando ele me viu (com ar de preocupado) perguntou como tinha sido lá no River - contei que havia sido contratado", desabafa.

"Na segunda vez que cantei e fui receber, meu nome já estava na lista: Carlinhos Moreno. O cara chamou para receber: fulano, beltrano, Carlinhos Moreno... Olhei para um lado, olhei para o outro, era eu mesmo. Assim nasceu o nome Carlinhos Moreno", conclui.

E assim Carlos virou cantor do River, clube tradicional de rodas de samba, onde craques do futebol carioca freqüentavam, além de grandes nomes do samba. Semanas depois de sua estréia veio o convite para cantar também no Sambola. Aos dezoito anos, Carlinhos cantava de quarta-feira a domingo, fazendo-se conhecer por um imenso público.

Propostas para cantar em outros Estados sucederam-se. Em Mato Grosso do Sul: cidades como Jardim, Bonito, Ponta Porã - turnê de dois meses. A banda era a Jeito de Ser, e na formação desse grupo tinha Arthur (que hoje é do Revelação), Gegê de Angola (hoje cavaquinho do Arlindo Cruz), Bira (hoje do grupo Mente Solta), Luizinho (cavaquinho do grupo Raça).

Carlinhos também montou um grupo chamado Pá e Bola, para tocar no Clube de Maria da Graça. "Tocávamos de terça a domingo, se tivéssemos disco venderíamos todos, mas não tínhamos essa visão", lamenta.

Muita estrada e coisas boas estavam para acontecer no caminho desse jovem talento. Pertenceu ao grupo montado por Jorge Lafont (Vera Verão da Praça é Nossa), 'Fandangos', onde teve suas primeiras músicas gravadas. Canjas, parcerias aconteceriam. Carlinhos compõe desde os 15 anos e a primeira música foi em parceria com Ratão (ex-integrante do Revelação) 'Pobre Coração'. Nessas andanças pelos palcos da vida, esse artista de mão cheia lembra de fatos que mudariam seu destino.

"Eu cantava no Biruta, Don Chopp e La Carreteira , alguém me ouviu cantar e recebi um convite para integrar a Banda Máxima (de Porto Velho), em Rondônia. Eles já tinham disco gravado, e pareciam ter uma grande estrutura. Fui para Rondônia. Quando cheguei, a decepção foi grande. Os caras estavam num quartinho, desanimados, sem pique. Mas eu já estava lá mesmo, fiquei. A banda era formada por Pedrinho (hoje no Imaginasamba), Luizinho (depois foi cavaco do grupo Raça), Walace, Jair, Chiquinho, Pinguim e eu. Batalhamos muito e levantamos o grupo. Gravamos o segundo disco, com duas músicas minhas: 'Nossa História de Amor' e 'Demorou'. A faixa 'Nossa História de Amor' ficou em terceiro lugar nas rádios locais, atrás apenas de Zezé Di Camargo e Luciano, e Leonardo. Conseguimos apoio de rádios e programas de televisão. Estouramos em vários lugares como: Rio Branco, Manaus, Brasília, São Paulo; tocamos em diversos lugares no Rio de Janeiro, abrimos shows do Soweto (primeira banda do Belo), do Fundo de Quintal, de Os Morenos, dentre outros.

Em Porto Velho, chegamos a sair do palco escoltados pela polícia, tão grande era o nosso sucesso. Chegamos a ter ônibus com frigobar - agenda lotada. Éramos 'o sucesso'.

Entretanto eu estava enrolado, com uma filha para nascer no Rio de Janeiro. Minha mulher vivia atrás de mim, me caçando em Porto Velho. Tive que dar uma parada para ir ao Rio ver a minha filha que havia nascido. Quando cheguei no aeroporto e vi a menina não tive mais condições de voltar para Rondônia. Tive que fazer papel de pai e cuidar da minha filha. Fui trabalhar com um padrinho meu num depósito. Comecei carregando uma caçamba de cobre na cabeça. Com muito esforço cheguei a Balanceiro, depois a Encarregado e acabei como Gerente da empresa.

Pintou uma proposta para fazer novamente o 'Pá e Bola' para tocar no Nogueira (uma casa na Piedade, onde o Revelação tocou muito), e era casa cheia, com mais de 1.200 pagantes. Trabalhava como Gerente durante o dia e à noite cantava. Aí a chapa começou a esquentar em casa. Minha mulher sabia que eu preferia estar no palco do que tomando conta de uma empresa.

Depois de certo tempo nessa rotina fiquei doente, e a coisa começou a ficar esquisita com meu padrinho. Nessa mesma época o casamento estava desabando. Parece que vem tudo junto, né?

Recebi um convite de um amigo para ir para Brasília. Fui para lá tirar umas férias. Passando por uma rua, vi uma faixa anunciando uma banda, a Amor Maior. Eram meus amigos, tinha um telefone de informação e fizemos contato com o Wilsinho. Ficamos dois dias tocando samba e batendo papo. Me convidaram para o show deles onde cantamos juntos. Conheci o Evandro 7 cordas, que tinha uma roda de samba e recebia convidados como Beth Carvalho, Fundo de Quintal etc. Conheci o Adilson Bispo e fizemos um sambinha na Granja do Torto; fiz participação no Feitiço Mineiro (casa conceituada em Brasília, na Asa Norte) no show do Noca da Portela e cantei também com o grupo Raça. Recebi elogios do antigo Chefe da Casa Civil, José Dirceu... Foi uma época boa, essa temporada em Brasília...", recorda o cantor.

Carlinhos Moreno seguia para onde a música o chamava.

"Fui convidado para fazer backing vocal do grupo Raça. Eu era fã deles desde criança, e tive a oportunidade de conhecer, por conta disso, outros músicos, outros Estados. Eles estão fora da mídia aqui no Rio, mas fazem muito sucesso aí fora. Afinal são 44 sucessos nacionais.

Um belo dia o Marley (líder do grupo Raça) me convidou para ir na casa do Marcelo Pepe (Universal Publishing). Lá, mostrei umas músicas e Marcelo me indicou um parceiro, o Cacá Nunes. Começamos a compor juntos e a primeira música dessa parceria foi gravada pelo Boca Loca; 'Toma Cuidado'. Outras duas foram gravadas pelo grupo Canto Maior. Também gravei cinco músicas com a banda Auê, da Bahia. Marcelo me apresentou o Jayme Pepe, seu irmão, e estou agora saindo pela Pepe Music com um CD promocional com três faixas. Acho que esse trabalho da Pepe Music é de ponta e tudo vai dar certo. Jayme é um dos caras mais sérios com quem já trabalhei e sei que estou em boas mãos', defende.

Carlinhos, ano passado, esteve se apresentando na Argentina, onde foi convidado por um grupo de samba chamado 'Malandragem Samba', de argentinos que cantam em português. O convite foi renovado para ainda nesse ano retornar aos palcos da terra de Dom Diego Maradona. Segundo o artista, não esperava ser ovacionado como foi em palcos argentinos por jornalistas, artistas plásticos e músicos que gostam muito da nossa cultura.

Fonte: Jornal das Gravadoras

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